domingo, setembro 13, 2015

Carta denuncia mosteiro em ITATUBA cercado de polêmicas.

Um mosteiro com ares de palácio e cercado de polêmicas. Construído há dez anos por iniciativa do monsenhor Jaelson de Andrade, atual pároco da Igreja Santo Antônio do Menino Deus, em João Pessoa, O MOSTEIRO MÃE DA TERNURA, EM ITATUBA, é um convite ao recolhimento e à reflexão dos fiéis que visitam o local. Contudo, por trás da aparente tranquilidade, a história do mosteiro, que funciona sem o reconhecimento da Arquidiocese da Paraíba, tem um capítulo obscuro, com denúncias e acusações.

O JORNAL DA PARAÍBA teve acesso à cópia de uma carta-denúncia redigida pelo monge da Igreja Anglicana dom Raphael Caneschi, que teria passado quase um ano no local a convite do monsenhor Jaelson. A carta foi entregue ao arcebispo da Paraíba, dom Aldo Pagotto, e ao então arcebispo de Garanhuns, dom Fernando Guimarães, responsável pela visita à arquidiocese no ano de 2013, durante visita canônica. O documento estaria também na Nunciatura Apostólica do Brasil, em Brasília, órgão da Igreja equivalente à embaixada do Vaticano no país.

Segundo a carta, o funcionamento do mosteiro não estaria de acordo com as normas da Igreja Católica. A denúncia foi encaminhada à Arquidiocese em 2013, mas só agora a imprensa teve acesso ao conteúdo. Até então, era 'segredo' tratado apenas dentro da Igreja, longe dos fiéis. O documento denuncia, entre outras coisas, o consentimento para relacionamentos homoafetivos dentro do mosteiro e a permissão da vinda de monges de outra igreja, que não a católica. O monge relatou, na carta, que viveu sob forte estresse e pressão para 'abafar' tudo o que acontecia lá dentro. Ele contou que chegou a ter surtos psicóticos enquanto estava no local.

Como monge beneditino anglicano, o autor das denúncias conta que foi convidado, junto com um companheiro, dom Guilherme, pelo monsenhor Jaelson, para ajudá-lo na fundação do mosteiro. Em troca, o monsenhor ajudaria os monges anglicanos a fazerem parte da diocese.

Na carta, dom Raphael diz que mantinha um relacionamento homoafetivo com dom Guilherme – o que seria permitido pela igreja a qual faziam parte – e que essa relação era de conhecimento do monsenhor Jaelson. “O monsenhor liberou para que nós pudéssemos ter relacionamento no Mosteiro quando assim desejássemos; não somente nós, mas também os outros irmãos que têm esse desejo”, narra o monge. Dom Raphael ainda acrescenta que, além do mosteiro, havia apartamentos em João Pessoa e Recife, onde os eles poderiam “praticar a homossexualidade”.

O monsenhor teria começado a ficar preocupado, segundo o monge, quando soube que haveria uma visita canônica à arquidiocese. “Ele queria que saíssemos de férias para não descobrir o que se passava no mosteiro, já que eu e o dom Guilherme somos um casal homossexual”. Na narrativa, dom Raphael ainda fala sobre casais homoafetivos dentro do mosteiro.

O mosteiro Mãe da Ternura está localizado na zona rural de Itatuba e recebe fiéis durante todo o ano, realizando, inclusive, retiros e outros eventos católicos. A carta redigida pelo monge é de conhecimento do arcebispo da Paraíba. Procurada, a arquidiocese confirmou a existência e o recebimento da carta e informou que apurou as denúncias, mas nenhuma delas foi confirmada.

Diante dos questionamentos sobre o funcionamento do mosteiro, a Arquidiocese da Paraíba afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que o local é de propriedade particular, não tendo ligação algu ma com a diocese, e que, por esse motivo, quem responde pelo local é exclusivamente o monsenhor Jaelson. A assessoria disse ainda que, por ser particular, sem vínculo com a arquidiocese, não necessitaria de autorização do arcebispo para funcionar.

PARA O MONSENHOR, CARTA É CALUNIOSA 
Após receber uma cópia da carta, a reportagem procurou o monsenhor Jaelson de Andrade para que ele apresentas- se sua versão. A entrevista não foi agendada; o encontro foi de surpresa. Jaelson colocava um cartaz no altar da Igreja Santo Antônio do Menino Deus, no Jardim Cidade Universitária, em João Pessoa. Duas horas depois ele celebraria a missa diária. Antes disso, atendeu os fiéis, pois o dia era de confissão. Algumas pessoas o esperavam pacientemente nos bancos da igreja. No confessionário, o monsenhor passou cerca de 10 minutos ouvindo uma mulher que buscava, por intermédio dele, o perdão para os seus pecados. Em seguida, os papéis se inverteram. O monsenhor, que minutos antes ouvia as confissões dos fiéis, agora dava suas próprias declarações. Começou dizendo que estava as- sustado por ser procurado pela imprensa em razão da carta, que, segundo ele, é caluniosa. “Essa carta é mentirosa, caluniosa, podre”, disse. A todo instante, ele aparen- tou tranquilidade e falou com firmeza. Não fugiu de nenhuma pergunta, mas negou todo o conteúdo da carta. Foram 36 minutos de conversa na casa paroquial da Igreja Santo Antônio do Menino Deus. Inicialmente, Jaelson disse que foi vítima de uma armação. Ele admitiu a presença dos monges vindos de fora para o mosteiro Mãe da Ternura e que teria expulsado um deles por motivo de força maior, que seria problemas de saúde de um dos rapazes. “Não quero expor aqui a vida de ninguém, mas nos vimos obrigados a tiralos. Ele precisava se tratar”, declarou. Segundo Jaelson, o monge omitiu que pertencia à Igreja Anglicana e chegou a apresentar carta de recomendação quando chegou ao mosteiro. O monsenhor disse que o monge o ameaçou, dizendo que iria caluniá-lo. “Ele disse que iria jogar calúnias envolvendo o meu nome, mas eu garanto que é tudo mentira”, destacou. Na entrevista, o monsenhor revelou que prestou esclarecimentos à Arqui- diocese da Paraíba e que todas as denúncias apresentadas são infundadas. “Respondi ponto a ponto as denúncias, e nada ficou provado. Eu estou sendo vítima de calúnias e de injustiça”, declarou. Segundo Jaelson, ele foi orientado a acionar o monge judicialmente, mas desistid a ideia ao saber que ele (o monge) estava fora do país. (Valéria Sinésio)

MONASTÉRIO SEM RECONHECIMENTO 
O mosteiro, embora se denomine beneditino, não tem reconhecimento da Ordem de São Bento, segundo informações que chegaram ao JORNAL DA PARAÍBA. A reportagem procurou a Ordem, no Rio de Janeiro, e lá recebeu a informação que realmente não há esse reconhecimento. Contu- do, foi ressaltado que não há problemas em relação a isso. Segundo a Ordem, não há essa obrigatoriedade de reconhecimento. O monsenhor Jaelson disse que há no Brasil diversos mosteiros e que o Mãe da Ternura é uma fraternidade monástica da Santa Cruz, que segue a regra de São Bento. “Não somos da Ordem, se alguém entendeu assim, entendeu erra- do”, pontuou. Sobre o não reconhecimento por parte da Arquidiocese da Paraíba, ele explicou que o mosteiro está em um período de experimento, e que é comum o reconhecimento demorar alguns anos. Apesar de ter sido construído há dez anos, o mosteiro só funcionaria há quatro, segundo Jaelson. “A Igreja não reconhece nada a priori. É necessário o período de experiência, isso é a regra”, declarou. Segundo o mon- senhor, o arcebispo dom Aldo Pagotto quis reconhecer o mosteiro Mãe da Ternura, mas ele pediu mais tem- po. A intenção de reconhecimento teria acontecido há dois anos, conforme Jaelson. “O espaço ainda é muito novo”, frisou.

A mesma inveja, que levou Caim a matar o irmão Abel, conforme conta a Bíblia, seria a explicação para as intrigas que dividem o clero na Arquidiocese da Paraíba, segundo declarou o monsenhor Jaelson. Ele se disse triste e decepcionado com o momento atual vivido na Igreja Católica. “É terrível, lamentável. Quando um padre é atacado injusta- mente, muita gente sofre. Há toda uma comunidade por trás dessas acusações”, disse. O monsenhor disse que nunca teve conflitos com os colegas religiosos, e que por isso não saberia explicar o motivo pelo qual a tal carta teria escapado dos segredos da Igreja Católica. “Sou uma pessoa pacífica, não sabia que tinha inimigos no clero, mas agora, pelo jeito, tenho. Mesmo sem provocar, sem tocar em ninguém, sobrou para mim”, lamentou. Ele também falou sobre as recentes denúncias envolvendo dom Aldo: “Se existe algum motivo para alguém não gostar do arcebispo, por que não tratar isso internamente? Não precisa de escândalos”, afirmou. A crise na Arquidiocese da Paraíba parece evidente. Na semana passada, quando foi realizada a reunião do conselho presbiteral, foi apresentada uma carta de solidariedade a dom Aldo, mas os padres teriam se recusado a assinar o documento. Há duas semanas o JORNAL DA PARAÍBA publicou reportagem sobre a suspensão do arcebispo em ordenar presbíteros e diáconos por determinação do Vaticano. O arcebispo estaria sob investigação, com processo em andamento na Nunciatura Apostólica. (Va- léria Sinésio)