Daqui a 100 anos, alguém na Paraíba escreverá sobre política e vai lembrar do primeiro turno das eleições de 2010. A surpreendente vitória de Ricardo Coutinho sobre o governador José Maranhão entra pra história política paraibana não apenas como mais um fato. Entra como um marco.
A partir de hoje, se inicia nova era. Uma era onde governantes, sustentando o poder da máquina, da imprensa, de parte da Justiça e de partidos políticos, não conseguem afogar a vontade espontânea do povo.
Com uma derrota empurrada de goela abaixo, Maranhão descobriu, com gosto amargo, que nem tudo se consegue colocando preço. Nem tudo está à venda. A partir das eleições de 2010, será possível peitar o invencível. Desde que o povo impulsione.
Claro que a vitória ilógica de Ricardo tem base lógica. A aliança que ele fez com o ex-governador Cássio Cunha Lima, somada à resposta que João Pessoa deu, acabou funcionando.
E por que não funcionou desde o começo, perguntarão os leitores?
Por uma questão simples: o “cassista”, ou o eleitor não-maranhista, teve pouco tempo para criar afinidade com Ricardo Coutinho antes do processo eleitoral. Por isso, a campanha fria, onde os números das pesquisas em favor do ex-prefeito não correspondiam ao “tamanho” de Cássio.
Quando se aproximou do dia da votação, esse eleitor se viu na “obrigação” de optar. E optou naturalmente pra Ricardo, reafirmando a divisão política histórica no Estado, mesmo sem alarde, o que explica o silêncio ensurdecedor que tomou conta da campanha na reta final.
Vale registrar o mérito de Ricardo de possuir uma militância consolidada que não o deixava cair nas pesquisas mesmo nos piores momentos. Em resumo, Ricardo tinha a base. Cássio chegou com o topo.
Vide a vitória de Ricardo nos grandes municípios, a começar por Campina Grande, onde venceu praticamente com o mesmo número de votos que Cássio venceu em 2006.
Quanto a João Pessoa, cidade que o impulsionou para a disputa estadual, Ricardo Coutinho obteve a resposta que esperava. E do mesmo jeito do que em 2004. Em silêncio. Só com a vontade de mudar, porque a Capital é oposicionista por natureza. Mas também sabe, como fez com Cícero em 2000 e com Ricardo em 2008, retribuir.
Em silêncio, João Pessoa retribuiu. Atendeu ao chamado. Mas não deu escândalo. Queria mostrar que pra eleger não precisa de alarde, assim como para governar não precisa de publicidade.
A liderança de Cássio e a vontade de João Pessoa foram as duas instituições que deram a vitória a Ricardo Coutinho e quase o fizeram governador de primeiro turno. Mas foi, de fato, o povo da Paraíba inteira, que não colocou placa de venda, que mostrou qual a única verdade indelével de uma eleição, para qual não há supremacia absoluta que o voto não derrube.
