
As últimas ocorrências policiais demonstram que o paraibano não tem mais
garantia de que vá sair de dentro casa e não sofra algum tipo de
violência. Não há mais situação, horário, local ou pessoa que intimide
os bandidos. Somente nessa semana dois secretários da Prefeitura de João
Pessoa, uma candidata ao Governo e o vice-prefeito de Campina Grande
foram vítimas de assalto. Sem falar no caso mais grave, ocorrido na
Capital, onde um bandido invadiu um quartel dos Bombeiros e matou um
sargento para roubar a pistola que o militar usava, na segurança da
portaria. O clima é de medo entre os paraibanos, inclusive entre os
servidores das forças de segurança.
O sargento Josélio de Souza Leite, de 52 anos, estava de serviço na
guarita do portão principal, do quartel dos Bombeiros que fica no bairro
de Mangabeira, Zona Sul da Capital, quando um homem armado invadiu o
local para roubar a arma do militar. Houve uma rápida luta corporal e o
sargento foi baleado no rosto, morrendo ainda no local. Mesmo depois de
atirar e ver que o militar tinha caído agonizando, o homem se abaixou,
pegou a arma e fugiu, de carona na moto de outro homem, que dava apoio
ao assalto. Três suspeitos foram presos no fim do dia e apresentados
como autores do assalto.
No mesmo dia, o vice-prefeito de Campina Grande, Enivaldo Ribeiro (PP),
teve o carro e um celular roubados, no bairro Bodocongó, Zona Oeste da
cidade. O político estava jantando na casa de um eleitor, enquanto o
motorista e um assessor o aguardavam dentro do veículo, na frente da
residência. Dois homens armados se aproximaram e roubaram a caminhonete
do vice-prefeito, onde também estavam guardados os objetos pessoais de
Enivaldo, a exemplo dos telefones celulares.
Também na quinta-feira, só que na Capital, a candidata ao Governo do
Estado, Rama Dantas (PSTU), foi assaltada quando chegava à residência,
no bairro dos Bancários. Ela estava a cerca de 200 metros de casa,
quando foi abordada por dois bandidos, que tomaram a bolsa e o celular
da candidata.
Na terça-feira (28), dois secretários da Prefeitura de João Pessoa foram
assaltados no bairro de Cruz das Armas, ao saírem de uma atividade
política. "Foi algo que não desejo para ninguém. Depois que passa a
tensão do momento e que a gente bota a cabeça no travesseiro é que
percebemos que nossa vida não está valendo nada. Que estivemos muito
perto da morte. A Paraíba vive uma insegurança que vai da orla até
Cajazeiras. Não há um lugar sequer que esteja a salvo", disse Graco
Parente, uma das vítimas, secretário adjunto de Turismo. Ele e o
secretário José Gadelha, adjunto da pasta de Trabalho e Renda, foram
abordados por dois homens armados, quando entravam no carro para voltar
para casa. Tiveram carteiras e celulares roubados.
Sociedade e até integrantes das forças de segurança estão com medo
Durante o velório do sargento Josélio, medo era a palavra mais usada
pelas pessoas que quiseram falar sobre o ocorrido. "Além de medo, o
sentimento é de muita indignação. Como se imaginar uma situação dessas,
ele sendo militar, estava dentro de uma área de segurança e acontece
isso. Imagina um de nós, simples cidadãos. Nós estamos perdidos. Eu
mesma já fui assaltada, mas Deus me livrou porque, na hora, um colega
milita ia passando, conseguiu intervir e deter o bandido, que estavam
armado", contou a técnica de enfermagem Leide Nery Moura, amiga do
militar assassinado.
"O povo não aguenta mais tanta insegurança, onde os bandidos invadem
quartéis e tiram a vida de um servidor público, que trabalhava para
salvar vidas", gritou um amigo do sargento, enquanto o caixão descia ao
túmulo.
Um bombeiro que não quis se identificar, temendo represálias do Governo,
disse que está trabalhando com medo e que a vulnerabilidade dos
militares nos quartéis da corporação é muito grande. "Nossas unidades
são diferentes dos quartéis da polícia, porque fazemos um atendimento à
população e temos que ficar de portões abertos. O que eu estou vendo é
os colegas comprando armas particulares, aqueles que conseguem o porte
de arma, porque tá todo mundo com medo", disse.
Especialista culpa poderes Executivo e Legislativo
Para o professor José Maria Nóbrega, coordenador do Núcleo de Estudos da
Violência da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), a onda de
violência tem vários motivos, que incluem baixo investimento do Governo
do Estado em inteligência policial. Mas o problema mas grave, segundo
ele, é a atual Lei de Execuções Penais (LEP). "É uma Lei que dá tanto
direito ao criminoso que acaba encorajando bandidos a praticar crimes.
Vivemos um momento de um garantismo pena exacerbado. O cara que matou o
sargento, por exemplo, tinha sido preso com droga no final de semana
anterior e já responde a outro processo na Justiça. Mas estava nas ruas
praticando crimes. A sociedade precisa pressionar seus legisladores para
que reformem a LEP. Esses caras agora estão presos e no primeiro
feriado que vier, vão para a saída temporária e praticar novos crimes.
Isso não é justo", afirmou.
O professor também defendeu a idéia de que o suspeito poderia ter sido
morto, antes de matar o sargento. "Ele invadiu um quartel com arma na
mão. Pela doutrina militar, em uma situação como essa o suspeito poderia
ter sido abatido. Mas se isso tivesse ocorrido no quartel dos
Bombeiros, o mundo viria a baixo, por conta da ação dos militares. Mas
como foi o sargento que morreu, então parece está tudo certo. Bandidos
não podem ter tantos direitos como estão tendo no Brasil. O acusado deve
ter sua defesa, até o último recurso. Mas uma vez condenado, tem que
pagar pelo que fez. Não é mais hora de dar direitos a eles",
acrescentou.
Acusados dizem que mataram sargento para roubar arma
A prisão de três acusados de participar da morte do sargento Josélio
revelou que o plano era roubar a arma do militar, para ser vendida pelo
valor de R$ 6 mil e o dinheiro dividido entre os envolvidos. O primeiro a
ser preso foi Natan Afonso de Carvalho, de 18 anos, localizado no
bairro do Valentina. Ele teria sido o condutor da moto. Após confessar
participação no crime, ele apontou Jonas Ribeiro Sobrinho, de 20 anos,
que teria atirado no sargento. Natan receberia R$ 1 mil de Jonas pelo
serviço do transporte.
Preso no bairro de Quadramares, ainda de posse da arma do crime, Jonas
estava no regime semiaberto, de um processo por roubo. Ele tinha sido
preso no final de semana anterior, com duas porções de maconha, mas foi
liberado após assinar o termo circunstanciando de ocorrência (TCO). O
último preso foi Thiago Ribeiro da Cunha, de 32 anos, que também
responde a processo e cumpre pena de prestação de serviço comunitário,
no quartel onde ocorreu o crime. Ele que teria dado informações sobre a
rotina do sargento Josélio na guarda da recepção, indicando o melhor
horário para o assalto, em que o militar estaria sozinho. Os três
passaram pela audiência de custódia ainda ontem e foram enviados para o
presídio PB1, na Capital. jornal correio